Actividade preparada pelo Ateliê para a visita de José Jorge Letria e André Letria à nossa Escola

Click to play this Smilebox slideshow
Create your own slideshow - Powered by Smilebox
A free photo slideshow by Smilebox

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Pintar com palavras

«Onde estarão as minhas tintas?!», perguntava-se vezes sem conta o Gonçalo.
Tinha vasculhado a casa de uma ponta à outra e… nada. Tinham desaparecido! Logo hoje que lhe apetecia tanto pintar.
- Viste as minhas tintas, mana? – perguntou à irmã.
Ela respondeu que não.
- Viu as minhas tintas, mãe? – e arrependeu-se logo da pergunta, porque a mãe desatou a refilar que ele nunca sabia onde punha as coisas.
O avô era a sua última esperança. Entrou no escritório, onde sabia que o avô estava a trabalhar, e perguntou-lhe onde paravam as suas tintas. Foi com tristeza que ouviu um «Não sei!». Mas vendo o neto tão desiludido, o avô disse-lhe:
- Não vais pintar, só porque não tens tintas?
O menino surpreendido fitou-o e respondeu:
- Como é que eu poderia pintar sem cor?
O avô chamou-o carinhosamente e sentando-o no colo, explicou-lhe:
- Sabes que não são só as tintas que têm cor? Há outros meios de «pintar», de transmitir as imagens e os sentimentos que queremos, não da mesma forma, é certo, mas de outra, também bonita.
O rapaz olhou-o novamente incrédulo.
- Estou a falar das palavras. Podes usá-las para formar uma imagem, dar-lhe cor, dar-lhe vida… Mas ao contrário dos outros desenhos e pinturas, estas nem todos conseguem ver, ou, pelo menos, da maneira que tu as pensaste. É preciso ter uma sensibilidade especial e uma grande imaginação para o conseguir fazer – continuou.
- O avô consegue fazer isso? Já usou palavras para pintar? – perguntou curioso.
- Já sim. Gosto muito. Foi na tua idade que comecei a descobrir os segredos que as palavras detinham. Queres ver alguns?
O menino abanou que sim com a cabeça. Estava desejoso de ver aquelas obras.
O avô procurou entre os seus muitos livros e dossiês e soltando um «Ah há!», retirou um livro da prateleira mais alta.
Sentou-se novamente com o neto e juntos folhearam o livro. Eram poemas. O Gonçalo tentou ler o primeiro, mas para sua grande frustração, não percebeu nada, muito menos conseguiu ver alguma coisa.
O avô entendendo, disse:
- A poesia é um bocadinho mais difícil. É preciso ler mais do que uma vez. Cada vez que fores lendo, a imagem vai-se tornando mais nítida. Deixa as palavras e a tinta que elas guardam fluir na tua mente. A pouco e pouco vão dar cor ao quadro que procuras. Leva o livro, Gonçalo. Olha-o com paciência. Diverte-te com ele – sugeriu o avô, que, a cada dia, estava mais velhinho.
O pequeno pegou no livro e correu até ao quarto. Leu e releu o poema. O avô tinha razão! À medida que se ia concentrando, ia entendendo melhor. Gostava do mistério, do desafio, da excitação que o inundava e da calma que as palavras lhe traziam. Com o treino, tudo se tornou mais fácil e imediato, e adorava aquela sensação de curiosidade saciada. Admirava imensamente o avô por ter sido capaz de pintar tão bem daquela forma e estava ainda estupefacto com a força que um simples conjunto de letras podia esconder.
Agora, desejava seguir-lhe o exemplo! Conseguir pintar daquela forma, transmitir o turbilhão de sensações e sentimentos que o percorriam diariamente para, um dia, mostrá-los também aos seus netos.

Madalena, Francisco e Isabel Stilwell, Histórias para contar em minuto e meio 2, Editora Verso de Kapa

Sem comentários:

Enviar um comentário